Topless: Femen, fenômeno midiático ou feminista?

Emilie Brouze, para o Rue89

Inna Shevchenko, entrevistada após o treinamento do Femen no centro de treinamento parisiense no dia 8 de dezembro de 2012

Inna Shevchenko, entrevistada após o treinamento do Femen no centro de treinamento parisiense no dia 8 de dezembro de 2012

 

Tradução Jose Antonio Pano e Letícia Oliveira

As ativistas do Femen conseguiram construir uma imagem de guerreiras corajosas. Mas quais são seus ideais? Seu método de ação
provocativo não é aceito por unânimidade.

A primeira vez que vi o Femen na França, elas eram 3 ativistas fantasiadas de domésticas e estavam na praça de Vosges, Paris, em frente à residência de Dominique Strauss-Kahn. Brincando com esponjas, elas cantavam “Voulez-vous coucher avec moi? (Você quer dormir comigo?) e depois começaram a gritar frases de ordem em inglês:

“Que vergonha! Que vergonha!”

Após o acontecido, as fotos das jovens conhecidas por protestar com os seios nus se multiplicaram.

Este artigo foi escrito por causa de um receio.

De um mal estar.

Quem são realmente as Femen? Que ideias as motivam?

“Procura-se: Femen com seios flácidos”


Responder a estas questões não é nem um pouco simples. Há  pouco mais de um ano as temos vistos nos meios de
comunicação, brandindo orgulhosamente seus cartazes, suas coroas de flores, sua beleza, seus corpos jovens e firmes.

A nudez não é impactante para nós, mas as imagens nos parecem problemáticas. Por que todas as ativistas tem barrigas chapadas?
Só há modelos no Femen? Para esta questão, as ativistas já tem uma resposta pronta.

Depois que a cronista Gaelle-Marie Zimmerman twittou “Procura-se:
Femen com peitos flácidos” Elvire, uma ativista, a respondeu com uma foto para provar.  Algumas delas não são top models.

Twitter   ElvireDCharles   LaPeste Et sinon on fait quoi ...

Quem são as Femen na França?

O Femen diz que conta com 30 ativistas de topless desde o debut do movimento na França. O movimento começou depois que Inna
Shevchenko chegou ao país. Ela fugiu da Ucrania Por ter cortado uma cruz com uma motossera, estava ameaçada de ir presa em seu
país.
No começo, algumas militantes dos movimentos Ni putes, ni soumises, La Barbe e inclusive Osez le féminisme se juntaram ao
Femen. Mas parece que agora isso já não procede pois a maioria das ativistas que conhecemos não possuem nenhum passado
militante.

As outras feministas? Não, os homens

A Ucraniana Inna, de 22 anos, é a líder do movimento na França. Quanto a entrevistamos, ela estava recolhendo as inscrições
das jovens que queriam participar do Femen, jovens que ela conheceu no momento que chegou à França. Ela não se preocupou muito com os questionamentos a respeito desta atitude.

Elas me disseram que os coletivos feministas da França não são para  jovens, somente para as intelectuais que se parecem com homens, que renegam sua sexualidade, que não deixam que as mulheres sejam femininas. É por isso que o Femen atrai as mulheres jovens, não havia nada para elas antes de nós aparecermos.

Inna também disse que as “antiquadas” são respeitadas no Femen e disse que concordava com o clichê sexista a respeito das feministas. O que nos assustou de imediato foi a maneira com a qual os meios de comunicação deram destaque às ações do grupo.

Uma Femen com os seios a mostra, 69 500 cliques no Rue89.

Nem todos os jornais destacam o que elas fazem da mesma forma, mas só os muito ingênuos não se dão conta da fascinação que
elas causam não só nos jornalistas mas também nos leitores, ouvintes e espectadores.

Por exemplo, aqui no Rue89, no primeiro artigo que escrevemos sobre o Femen (foram 3) havia uma galeria de fotos na qual
podía-se ver a foto de uma das ativistas em frente à casa de DSK, com os seios nus. Três parágrafos acompanham a imagem. O
artigo recebeu 69 500 visitas. Muitas.

Em cada acontecimento promovido pelas jovens vemos os fotógrafos ali plantados, quase sempre em maior número que as ativistas.
Reduzir a fascinação que elas causam nas redações a um gosto por altas margens de audiência, seios nus e corpos bem torneados
seria um tanto simplista.

A relação dos meios de comunicação com o Femen e do Femen com eles é mais complexa que isso.

Esta semana, a revista Les inROCKuptibles, por exemplo, estampou duas ativistas em sua capa. Perguntamos a Geraldine Sarratia,
uma das autoras do artigo sobre o Femen qual seria a razão desta escolha:

“Nós escolhemos esta capa porque este novo feminismo pop parece interessante.Elas são fortes porque querem passar essa imagem.Para nós, o Femen foi uma das imagens mais importantes de 2012.”

Capa da revista francesa Les inROCKuptibles, 19 de dezembro de 2012

Capa da revista francesa Les inROCKuptibles, 19 de dezembro de 2012

 

Contagem Midiática


Procuramos em diferentes jornais o número de artigos dedicados ao Femen após 2010:

L expresso: 9 artigos – menção especial às perguntas sexistas do teste ”Posso me tornar uma Femen?

Liberation: 15 artigos.

Le Monde: 11 artigos.

Rue89: 3 artigos e 4 slideshows do Nouvel Observateur.

“Uma imagem altamente pop, atual”


Julia, de 25 anos, quando soube que Inna abriria uma filial do Femen na França, mandou 10 emails para participar. Fotógrafa,
ela foi seduzida (entre outras coisas) pela questão da imagem.

Eu descobri o Femen por causa do protesto contra DSK. Tive uma primeira impressão forte, elas tem uma imagem totalmente pop, atual e
de uma inteligência extrema. Elas usam os princípios da publicidade para criar uma imagem, um slogan e conseguem reproduzir dez páginas de
um manifesto em uma imagem extremamente eficaz.

Podemos dizer que elas são corajosas, porque elas o são. É necessário ter cara de pau para ir a uma manifestação organizada
pelo grupo católico extremita Civitas, vestidas como freiras usando cintas ligas e os seios nus no lugar do hábito.

Geraldine Sarratia, do Inrocks:

Achamos que existe sinceridade em seu discurso, estão comprometidas e dedicadas ao seu combate, são guerreiras Seu único uniforme são os seios.

Esta idéia é agradável ao Femen. Em sua página da internet podemos ver uma guerreira orgulhosamente levantando um par de testículos recém cortados.

Ativista segura foice e testículos cortados

Ativista segura foice e testículos cortados

Inna: “Elas não podem sorrir”

Sábado, 8 de dezembro. Nós fomos ao “centro do treinamento” do Femen, em Paris, na parte nova do bairro Lavoir. Eram 10
Femen e 11 jornalistas que vieram para vê-las exercitando-se, aprendendo a esgueirar-se da polícia e praticando esportes para
estar em forma para as manifestações.

Em inglês, Inna ordenou-lhes que gritassem os slogans:

  • Pobres por causa de você
  • In gay we trust (trocadilho com o dito em inglês “In God we trust, que é o lema dos Estados Unidos)”
  • Laicité, liberté (laicidade, liberdade)
  • Nudez é liberdade
  • Arábia Saudita, tire suas roupas
  • França, tire suas roupas

E quando uma novata, Rookie, sorriu porque o exercício le pareceu estranho, Inna a repreendeu:

Você não pode sorrir. Você deve odiar seu inimigo o tempo todo.

Sem malícia, “treinamento” é uma palavra que se encaixa muito bem no que vimos, porque parece mais um curso de aeróbica para
ativistas.Elas são jovens, a “mais velha” tem 26 anos de idade, mesmo que Inna diga que há algumas pessoas idosas.

O que todas tem em comum é a atração pelo lado guerreiro do Femen. Pauline, que estava lá pela primeira vez, nos disse que via
os outros movimentos feministas como “fora de moda”.

Fanny, uma estilista de 24 anos, disse após estar um mês e meio no Femen:

Já não aguentava mais ficar sentada no meu sofá vendo coisas horríveis e não fazer nada.

Para Marguerite, estudante de arte de 22 anos que está no movimento há 2 meses, o Femen é formado por “guerreiras”. Foi por
este motivo que elas compareceram à manifestação do Civitas.

Femen e Civitas se enfrentem em manifestações opostas nas ruas de Paris, 7 de novembro de 2012

Femen e Civitas se enfrentem em manifestações opostas nas ruas de Paris, 7 de novembro de 2012

Se outros ativistas LGBT* fossem no nosso lugar eles poderiam ter morrido, porque recebemos golpes quase que mortais…
Nós fomos as únicas que capazes de fazer isso porque contávamos com uma grande cobertura midiática.

O gosto pela ação. Para estas militantes debutantes, o Femen é o único movimento que corresponde à essa vontade de agir. Mas quando se trata do discurso, a coisa complica

Protestos pelo fechamento de zoológicos, contra a neve…


De tanto fotografar os seios da Femen nós jornalistas nos esquecemos de contar quais eram suas lutas, sua motivação. Ou então
os propósitos é que são um pouco vagos. Alguns exemplos:

Vendo de um ponto de vista estritamente feministas, elas estão longe de ser uma unanimidade. Algumas ativistas reprovam seu
discurso confuso e outras são contra a visão que o Femen tem sobre as mulheres.

“Nós sabemos o que a mídia quer”


O que levanta o debate é o que elas dizem a respeito da nudez. Qual é o significado que elas dão a isso? Em várias
entrevistas, a justificação que elas dão é que se trata da reapropriação do corpo feminino neste mundo masculino, usando a
provocação como luta. A principal razão é simples, Inna nos diz que jamais se imaginou andando nua dois anos atrás.

“Eu era contra, o assunto foi debatido pelo movimento na Ucrânia durante 6 meses.”

Durante os primeiros 2 anos da existência do Femen, nenhum jornalita deu atenção nelas, contou Inna.

Nós sabemos o que a mídia quer.Ela quer sexo, escândalos, tumultos: e é isso que nós vamos dar. Estar nos jornais é existir.

É nossa única proteção contra os ataques que sofremos durante as manifestações

Quando a mídia está presente isso não acontece. Perguntamos a Marguerite, uma ativista, se é isso que ela mais gosta no Femen:
“O fato de mostrar meus seios duas vezes durante as manifestações foi o que me levou a falar com vários jornalistas sobre o
tipo de opressão que sofremos.”
Dez câmeras valem mais que 30 manifestantes, garante Inna. Durante o treinamento ela grita para suas meninas, sempre em
inglês:

“Nós trabalhamos com as câmeras. Nós compartilhamos nossa mensagem”

De quem é a culpa, da mídia ou do Femen?

No treinamento, as ativistas aprender a adotar uma pose impecável para as câmeras: pernas rígidas, mão direita no quadril, o
punho esquerdo levantando e o peito para fora, formando uma espécie de cruz com seus corpos. Aquelas que não concordam com
esta regra são repreendidas com carinho.

Inna explica que a pose garante a visibilidade dos slogans pintados em seus corpos e cartazes. As palavras escritas no corpo
são a única mensagem que será difundida integralmente pela mídia, diz Inna.

Mas e se elas não puderem controlar sua imagem? É o que diz Meghan Murphy, jornalista e blogueira feminista canadense.

A estratégia do Femen não ajuda as mulheres a controlar seus próprios corpos, pelo contrário, faz com que a mídia os
controle.. A mídia diz “nós não vamos nos interessar a não ser que vocês sejam sexy e fiquem nuas e o Femen obedece. Então
quem controla quem nessa situação?

Mostrando os seios sem apresentar um discurso maior que um simples slogan elas só conseguem ser mal interpetadas pela mídia.
Um exemplo é o teste sexista do L’Express que pergunta se a leitora preenche os requisitos necessários para ser do Femen:

As ativistas de topless chegaram na França. Bonitas e rebeltes, estas feministas não sentem frio no estômago e nem no decote.
Então, por que não ser uma Femen?

Quando falamos com Elvire a respeito da relação do Femen com a mídia, ela ficou nervosa e disse:

“Alguns jornalistas descrevem as coisas de uma maneira muito superficial: nossa causa é explicada em três linhas, três
parágrafos e só destacam o fato de fazermos topless, nenhum debate, nenhum conteúdo.”

Ela gostaria de ouvir a mídia falar de suas lutas: abolição da prostituição, assédio nas ruas, a laicidade, o patriarcado. De
quem é a culpa, da mídia ou do Femen?

“O público não quer ver nada além de peitos?” pergunta Tetyana Bureychak, pesquisadora de uma universidade ucraniana em um
artigo do Le Monde.

“As autoridades mudaram sua forma de agir por causa destas manifestantes? Elas conseguiram alguma mudança? Eu duvido.”

“Subversivo na Ucrânia, mas na França…”

A nudez é um dos pontos de divergência entre o Femen e outros coletivos feministas. Quando questionada pelo Rue89, Claire Piot
do coletivo Osez le féminisme, respondeu:

O topless pode ser subversivo na Ucrania, mas na frança o corpo da mulher é um objeto já instrumentalizado. Atrai a atenção,
gera controvérsia… mas não convence a todos

A socióloga e feminista Rose-Marie Lagrave, acrescenta: “estas ativistas precisam de mais tempo para amadurecer”:

“O Femen ainda não tem um discurso articulado.. Somente com a experiência na militância que é que se constrói um discurso coletivo.”

Leia o artigo original (em francês) aqui.

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