Ah! Femen…

Ativistas do coletivo francês Les Tumultueuses

Ativistas do coletivo francês Les Tumultueuses

Tradução Jose Antonio Pano e Ana Cecília

Femen, vamos falar delas.

A princípio não encontramos outra forma para descrevê-las corretamente. Mulheres ativistas, feministas melhoradas, que aparecem nos meios de comunicação. Com todas essas virtudes, o mundo feminista deveria estar feliz…

Vamos encarar, as Femen são corajosas, seus protestos são radicais e eficazes (mas sistematicamente colocados em segundo plano pela imprensa) e além disso, elas se arriscam.

As Femen nos agradavam, tivemos a intenção de trabalhar com elas, mas só depois de vê-las mais de perto é que pudemos ver as divergências. Sem querer dizer que existem boas ou más feministas, temos que levar em consideração que há muitos feminismos e que o tipo de feminismo que o Femen defende pode ser perigoso.

Por que, sendo feministas, não podemos apoiar um movimento como esse?

– Porque o Femen defende um feminismo essencialista, baseado no instinto e na “natureza” das mulheres. Segundo suas próprias palavras, “Reconstruímos uma imagem interna do feminino, da maternidade, da beleza. Baseado na experiência dos movimentos das mulheres euro-atlânticas” (sem especificar a que movimentos se referiam…);

– Porque politicamente seus objetivos são os mais questionáveis possível : moralistas (“desenvolver qualidade intelectual e moral das mulheres ucranianas”), nacionalistas (“limpar a imagem da Ucrânia, um país repleto de oportunidades para as mulheres”), racistas (como no protesto feito em frente à embaixada da Turquia sob o pretexto de que os cidadãos turcos são os turistas sexuais mais ativos na Ucrânia);

– Porque grande parte de suas ações na França consistem em “libertar” as demais mulheres dizendo a elas o que é bom e o que é ruim. Assim como se pode ver em seus inúmeros protestos que estigmatizam, culpabilizam e infantilizam as mulheres muçulmanas (como no protesto feito no Trocadéro, vestidas em niqabs para depois tirá-los e passar a mensagem “Melhor nua que de burca”, como se fosse assim tão simples…) ou por suas ações que estigmatizam, culpabilizam e infantilizam as prostitutas (leiam seu plano de ação: “Sex is not for sale”). Porque simplesmente, sobre esses assuntos (o véu e a prostituição), as Femen têm as mesmas ideias que as feministas “institucionais”, e não concordamos;

– Porque o Femen é financiado por homens de negócios e por milionários (o milionário Helmut Geier e a mulher de negócios Beate Schober, entre outros);

– Porque o Femen chega aos locais de protesto de limusine com motorista;

– Porque o Femen utiliza discurso machista (durante o protesto topless contra Dominique Strauss-Khan elas gritaram“Desça se você for homem”);

– Porque o Femen se encaixa em TODOS os padrões de beleza ocidentais (brancas e magras), são excludentes;

– Porque o Les Tumultueuses, ao contrário do Femen, não têm peitos bonitos, cuca fresca e  mãos limpas (hot boobs, cool head and clean hands)

– Porque depois de organizar protestos topless  nas piscinas parisienses, fomos às mulheres  explicar que nossa mensagem era uma denúncia contra o controle do corpo das mulheres pelo patriarcado e contra as normas de beleza dominantes e discriminatórias.

– Porque como feministas pensamos que é importante tentar não excluir as mulheres de nossas lutas;

– Porque como feministas estamos convencidas de que A mulher não existe, mas que as mulheres são muitas e não podemos falam em nome de todas elas.

– Porque como feministas preferimos que as mulheres se libertem por si mesmas ao invés de tentar  impor um modelo de mulher livre;

– Porque apontar o dedo aos homens muçulmanos como se eles fossem os novos inimigos das feministas é discriminatório;

– E, finalmente, porque não existe um “novo feminismo” nem uma “nova mulher”. As correntes feministas, suas reivindicações e seus modos de protesto evoluíram como todos os movimentos políticos, mas não surgimos do nada, nós temos uma história. Se trata de uma luta de muito tempo que ainda não acabou e que prosseeguirá pelo tempo necessário.

Les Tumultueuses

Texto enviado pela organização feminista Les Tumultueuses em resposta a uma pergunta feita pelo site Rue89

Publicado originalmente em francês (pdf) aqui

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