Femen: Revelando o Sextremismo Ucraniano

Ativista do Femen protesta pela "Topless Jihad"

Ativista do Femen protesta pela “Topless Jihad”

Por Letícia Oliveira

Em meados de março de 2013, a ativista tunisiana do Femen Amina Tyler (nome fictício) ficou conhecida mundialmente por escrever em seu peito nu as frases “Foda-se sua moral” e “Meu corpo me pertence e não é motivo de honra para ninguém” e ter sido publicamente censurada por um religioso salafista que disse que ela merecia ser apedrejada até a morte segundo as leis islâmicas. Após o ocorrido, sua família a enclausurou em um lugar desconhecido pelas outras ativistas do grupo, o que as fez chamar por uma campanha de libertação da tunisiana, que segundo o Femen, corria risco de morte. Uma das ações pela libertação de Amina foi chamada de “Dia do Topless Jihad”, onde as ativistas de várias partes do mundo foram a embaixadas e mesquitas protestar contra a “islamização” e conclamar as mulheres muçulmanas a se libertarem do véu.

O grupo sextremista ucraniano foi muito criticado por sua postura neocolonialista e acusado de suprimir as vozes nativas de mulheres não ocidentais. Ocorreu uma reação imediata de mulheres muçulmanas dizendo que não precisavam ser salvas, o “Muslim Women Against Femen”, ao que uma das líderes do Femen, Inna Shevchenko prontamente respondeu, dizendo “preferir falar com mulheres, mesmo que atrás delas tivesse um homem com uma faca”.

A agressão e opressão perpetradas a Amina Tyler por sua família dentro de sua casa são, infelizmente, uma história comum dentre os relatos de violência contra mulheres no mundo todo. Drogar, bater e manter mulheres em cárcere privado – homossexuais e transexuais também costumam sofrer esse tipo de ataques – é uma das estratégias mais violentas contra a liberdade das mulheres, e mesmo as pessoas que não sofreram esse tipo de abuso tem alguma história parecida para relatar, inclusive envolvendo intolerância religiosa. Mas o que o Femen fez foi usar o caso Amina para justificar sua agenda islamofóbica e de viés colonialista e imperialista.

O discurso de “libertar” mulheres da opressão do véu é antigo e ainda é muito usado para justificar guerras e invasões de cunho neocolonialistas. Livrar as mulheres da opressão do Taliban foi uma das muitas justificativas dadas por George W. Bush para a invasão do Afeganistão, uma guerra que vem sistematicamente matando mulheres e crianças em nome de uma suposta liberdade.

Mulheres nigerianas protestam contra ataque de gangues em suas comunidades

Mulheres nigerianas protestam contra ataque de gangues em suas comunidades

Segundo Zeinab Khalil no artigo “Ponto de vista: a crítica ao Femen”, durante o período em que a Argelia foi colônia da França, era muito comum que mulheres francesas fizessem “cerimônias de desvelo” para as mulheres argelinas sob gritos de “viva a Argelia francesa”. Na visão dos colonizadores, tirar o véu era uma forma de “civilizar” e libertar os nativos do país.

Apesar de o Femen acreditar ter patenteado o topless como forma de protesto, ele é recorrente na história da luta pelos direitos das mulheres . Há relatos de protestos com uso de nudez em vários países do continente africano durante todo o sec XX, por exemplo.

Femen e Feminismo na Ucrânia

O Femen surgiu na esteira da Revolução Laranja ucraniana. A princípio, era um grupo de universitárias voltado especificamente para denunciar o impacto negativo que o turismo sexual e a prostituição tem na Ucrânia e seus protestos eram provocativos e teatrais, e a decisão de usar o topless foi bem posterior à criação do grupo. Segundo a ativista Inna Shevchenko, o grupo foi criado a partir do momento em que ela e algumas amigas viram que a revolução havia falhado:

Nosso primeiro protesto em topless foi uma manifestação política. Nós não imaginamos que continuaríamos fazendo topless após isso. Eu fui contra fazer topless por muito tempo, não podia aceitar. Mas nós não aguentávamos mais a situação. Então decidimos fazer algo realmente radical. Como não estávamos preparadas para pegar em armas, dissemos a nós mesmas: Ok, nossas armas são estas. Elas estão sempre conosco. Nós transformaremos isto (seios) em armas e os assustaremos. No dia seguinte nos demos conta de que pela primeira vez na história da Ucrânia independente feministas haviam protestado! Nós conseguimos a atenção das pessoas ao redor do globo. Nós percebemos que sim, poderia funcionar.

De acordo com a Wikipedia, o primeiro protesto topless do Femen ocorreu em agosto de 2009. Segundo o artigo “Feminismo na Ucrânia Contemporânea: da alergia à ultima esperança” da historiadora e especialista em estudos feministas, gênero, história oral e antropologia feminina do Instituto de Etnologia de Lviv, Oksana Kis, no 8 de março do mesmo ano havia ocorrido o primeiro grande protesto organizado por grupos de lutas pelos direitos das mulheres em comemoração ao dia internacional das mulheres nas maiores cidades ucranianas.

O fato de o grupo atestar que é pioneiro em feminismo e protestos é só uma das muitas declarações problemáticas que o Femen deu em relação ao feminismo ucraniano. Para Kis, a retomada tanto do feminismo acadêmico quanto do ativismo feminista ucraniano se deu no começo dos anos 90, após a independência do país. Ela relata que à época as organizações feministas ucranianas decidiram seguir o caminho da cooperação situacional em lugar do confronto com as autoridades por se tratar de um movimento relativamente novo e ainda enfraquecido.

Segundo estatísticas publicadas em artigo do Le Monde, as ucranianas recebem um salário até 70% menor que os homens do país, e cerca de 73% da população acredita que o homem deve ser o mantenedor do lar. Para a socióloga especialista em estudos de gênero da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla, Tamara Martesnyuk, o maior êxito do Femen é a visibilidade. Para ela, os métodos do grupo são inéditos em um país onde a imobilidade é histórica. Mas ela vê problemas na falta de foco do grupo: “Ao se manifestarem contra tudo e sem se importar contra o quê, as ativistas do Femen se apoderam de discursos que não estão diretamente relacionados aos direitos das mulheres. Suas denuncias a respeito da prostituição e da discriminação de gênero acabam se perdendo dentro desta agitação desordenada. Fica difícil, neste caso, distinguir a mensagem e o propósito real”.

A professora do departamento de historia e teoria da sociologia da Universidad Nacional de Lviv, Tetyana Bureychak, chama a atenção para o fato de que, apesar do choque inicial com o topless, as pessoas não se atêm à mensagem do grupo, que não logrou nenhuma mudança de fato no país. e assim a sociedade ucraniana permanece não se importando com questões de gênero

Faz se notar também o fato de que muitos grupos e feministas ucranianas alegam a falta de abertura do Femen ao diálogo com outros coletivos e ONGs de luta pelos direitos das mulheres, apesar de várias tentativas. Uma alegação também feita por grupos e feministas brasileiras desde a chegada do movimento por aqui. Além disso, as declarações do Femen a respeito da ideologia do grupo são bastante confusas. Muitas vezes a organização tentou se distanciar do feminismo, como atestou Anna Hutsol quando perguntada em 2011 se o Femen era um grupo feminista:

Não. Nós usamos o erotismo em nossas abordagens e na forma como nos vestimos. Isso não é permitido pelo feminismo.

O novo feminismo (traduzido equivocadamente como neofeminismo pela representante brasileira da organização) seria uma “nova onda do feminismo” criada pelo grupo, que seria nada mais que “juntar o movimento pelos direitos das mulheres à uma visão pós moderna da mídia, política e a manipulação do público masculino”.

São também conhecidas as declarações que o grupo dá sobre o feminismo “clássico”. Segundo Inna Shevchenko, “O feminismo clássico já morreu, não funciona mais. Ele só existe nos velhos livros e as vezes nas salas de conferências”.

Racismo e xenofobia

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“Hitler is alive”, protesto contra a indústria do sexo em Hamburgo, Alemanha jun/2012

A xenofobia da europa ocidental contra o leste europeu não se justifica em “graus de brancura” como disse Agata Pyzik no artigo “Branco nem sempre significa privilégio“, mas sim por uma crise econômica que elevou o grau de xenofobia em toda a europa, especialmente contra ciganos e muçulmanos de qualquer etnia. Sabe-se que este preconceito em relação aos países do leste sempre existiu na europa e foi inclusive trazido para o Brasil com os movimentos migratórios europeus – “polaca”, por exemplo, foi sinônimo de prostituta por muito tempo no Brasil, e o tanto “polaco” quanto “polaca” ainda são considerados termos pejorativos para poloneses e descendentes aqui no país. Reconhecer que há privilégios em ser branco não quer dizer que não haja preconceito xenófobo e étnico contra as populações brancas do leste europeu, mas dizer que isso se deve a um certo grau de diferenciação na “brancura” é uma falsa simetria.

Também não é o caso de minimizar a opressão sofrida pelas mulheres no contexto pós soviético, mas relatando uma crítica feita ao movimento assim que ele chegou ao Brasil, se é verdade que mulheres sofrem opressão diariamente no mundo todo, a realidade brasileira é diferente da realidade ucraniana, e não existe uma preocupação do movimento em adaptar seu discurso às realidades locais, deixando de apoiar lutas históricas dos movimentos feministas locais para se focar somente na agenda do grupo.

Não podemos fechar os olhos para a xenofobia e o racismo que tem se mostrado frequente nos países do antigo bloco soviético, em especial Rússia e Ucrânia. E é neste contexto que o Femen usa de sua suposta luta pelos direitos das mulheres como desculpa para manifestações de ódio. Os exemplos variam desde citações como a dada pela líder e fundadora Anna Hutsol “Como sociedade, não fomos capazes de mudar nossa mentalidade árabe em relação às mulheres”, quanto manifestações abertas de antisemitismo, xenofobia ,racismo e até flertes com o neonazismo – além da islamofobia tão propagada pelo movimento nos últimos tempos.

O movimento sempre teve uma conotação claramente nacionalista. O primeiro manifesto do Femen dizia, entre outras coisas, que o objetivo do grupo era “construir uma imagem nacional de feminilidade, maternidade e beleza baseadas na experiência dos movimentos das mulheres euro atlânticas”. Ela está aparente na escolha da coroa de flores, ou vinok, símbolo da pureza das virgens, e no uso das cores da bandeira Ucraniana, além do discurso de “desenvolver as qualidades morais, intelectuais e lideranças das mulheres ucranianas”, e do claro conteúdo xenófobo de algumas de suas manifestações.

Se na França o Femen atraiu prioritariamente uma parte da esquerda que é declaradamente islamofóbica, na Alemanha o influxo de mulheres conservadoras ao movimento se traduz na adesão de membros do partido CDU e da União Jovem Conservadora do país, que reúne os partidos conservadores católicos da Alemanha e tem uma agenda que advoga contra os direitos reprodutivos das mulheres.

Em uma de suas primeiras grandes manifestações na Alemanha, ocorrida no dia 25 de janeiro de 2013 na Rua Herbert, conhecido ponto de prostituição de Hamburgo, o grupo fez uso de simbolismo nazista para protestar contra a indústria pornográfica dizendo serem a prostituição e a indústria do sexo análogas.Para isso, usaram como mote o conhecido slogan “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta), muito usado nas entradas dos campos de concentração na Alemanha nazista, e trocaram a letra “x” na palavra “sex” (em sex industry is fascism) por uma suástica.

Em carta aberta ao Femen Germany, o grupo libertário feminista alemão e*vibes lembrou  que não só o protesto teve lugar em uma data muito próxima ao dia internacional de lembrança do holocausto, além de lembrar-lhes que o uso de símbolos e slogans nazistas fora de um contexto histórico são considerados como discurso de ódio na Alemanha, e portanto ilegais. Também em uma carta de resignação, a ex ativista do Femen Germany, Freya Victoria, lembrou que as prostitutas foram perseguidas pelo governo nazista por serem consideradas indivíduos “anti sociais” assim como judeus, homossexuais, ciganos e todos os que foram perseguidos pelo nacional socialismo.

Outras ligações conhecidas do Femen com pessoas e movimentos de cunho nacionalista e de extrema direita já foram relatadas. No Brasil, a líder Sara Winter foi e ainda é denunciada por manter ligações com a extrema direita nacionalista, e na Inglaterra, descobriu-se recentemente que o responsável pela manutenção da página do Facebook do Femen UK seria um homem que se apresenta como David Jones e é membro da English Defence League, uma associação de extrema direita que usa de violência contra imigrantes,especialmente contra muçulmanos, na Inglaterra.

Mas as manifestações de ódio mais contundentes foram produzidas pelo próprio Femen UA (ou International). Segundo o site indymedia.de, em setembro de 2009 o Femen mandou uma carta ao Serviço de Inteligência da Ucrânia (SUB) pedindo para que medidas fossem tomadas contra a peregrinação anual dos judeus hassídicos albaneses à cidade ucraniana de Uman durante a páscoa judaica. A carta dizia que “a afluência de representantes do judaísmo ortodoxo que possuem padrões culturais e comportamentais específicos trazem alguns perigos…” “os peregrinos demonstram total desrespeito às tradições locais”, “qualquer tentativa de ataque à nossa cultura deve ser suprimida” e o que seria a verdadeira razão do pedido “as evidências frequentes de assédio, coerção e até mesmo estupro de ucranianas pelos judeus hassídicos não são levadas a público e esmiuçadas em prol de uma pseudo tolerância religiosa”.

Ainda segundo o mesmo artigo, em 25 de agosto de 2010 o Femen mandou uma carta para a prefeitura da cidade ucraniana de Lviv, às vésperas da partida pela Europa League onde o time local Karpaty-Lviv enfrentaria o time turco Galatasaray. A carta conclamava a prefeitura a banir os fãs do time turco da cidade e incentivando os torcedores do Karpaty “a apoiar nosa iniciativa e não deixar os ‘machos turcos’ bancarem os chefes pela capital cultural da Ucrânia.” A torcida do Karpaty-Lviv é conhecida por suas expressões de racismo e fascismo dentro e fora de campo, e o time foi condenado pela UEFA a pagar uma multa de 25 mil euros por manifestações de cunho nazista durante esta mesma partida contra o Galatasaray.

De onde vem o dinheiro do Femen?

Campanha para a marca de lingerie turca Suwen International

Campanha para a marca de lingerie turca Suwen International

O financiamento do Femen é algo que levanta muitas questões desde sempre, como pode ser visto inclusive no antigo site do grupo. O que se sabe ao certo é que no ano de 2010 as ativistas declararam em entrevista ter um aporte mensal entre 600 e 700 euros, todos provindos de doação. O milionário estadunidense Jed Sunden, que à época era dono do conglomerado KP Media, editor do Kyiv Post, maior jornal de língua inglesa da Ucrânia (no qual Anna Hutsol era colaboradora) contribuía com 200 euros, e o milionário alemão Helmut Geier, mais conhecido como DJ Hell, contribuía com 400 euros. O resto do montante provinha das doações feitas ao grupo por apoiadores anônimos.

Não é segredo para ninguém que Jed Sunden realmente financiou o Femen por muitos anos. Ele próprio admitiu algumas vezes apesar de não dizer o valor de tal contribuição.

Mas em recente comunicado ao site de centro direita italiano Il Foglio, assinado por sua assistente Valeriya Kirchanova, Jed Sunden disse que não financia mais o Femen desde 2011. Disse ainda que as financiou desde o começo por acreditar na luta contra o turismo sexual, mas que a partir do momento que elas estenderam seu campo de ação e passaram a criticar religiões, política e a Eurocopa de 2012 elas perderam o foco. O comunicado foi enviado em resposta a uma matéria do diário, que reproduziu uma notícia de 2012 que diz que uma jornalista do canal ucraniano 1 + 1 se infiltrou no Femen e denunciou que o grupo tinha um orçamento mensal de 2500 euros, sendo Jed Sunden um de seus maiores financiadores, de acordo com a matéria original do canal ucraniano.

Segundo as ativistas, suas únicas fontes de renda são os produtos vendidos em sua loja virtual e as doações feitas às suas contas. Os produtos são caros: para ter uma impressão dos seios de uma ativista (boobprint) o incauto apoiador terá que desembolsar 70 euros. Também é comum venderem camisetas feitas à mão por ativistas, ou previamente usadas por alguma delas, por 100 euros.

No Brasil, a representante do grupo, Sara Winter, receberia um salário de 400 dólares da matriz, segundo matéria da ESPN Brasil. Apesar de ter negado primeiro, Sara confirmou ter recebido o tal salário, mas “apenas algumas vezes” e de acordo com a própria, o Femen internacional não manda mais dinheiro para a franquia brasileira.

Além disso, há as acusações de venda de protestos. Uma delas foi provada real e aconteceu no dia 8 de março de 2012 na Turquia, quando o grupo viajou ao país patrocinado pela marca de lingerie Suwen International. De acordo com a mídia local turca, o Femen assinou um contrato com a empresa para divulgar a companhia. Para a fundadora do coletivo, Anna Hutsol, “a marca procura oferecer lingerie saudável para as mulheres, e é por isso que o Femen visitará a loja da Suwen Internacional, já que considera a marca uma aliada.” Além disso, a Suwen também desenvolveu uma linha de lingeries com o nome “Femen”. O protesto, que se deu em frente à catedral Hagia Sophia, onde as participantes usaram produtos da marca e fizeram uma sessão de fotos prévia divulgando o nome da Suwen, resultou na deportação das ucranianas.

Dadas as declarações prévias de algumas integrantes do grupo, o que se vê é que o Femen não tem medo de usar a exposição de suas ativistas em meios de comunicação como forma de angariar fundos. No artigo “Two Bad Words: Femen & Feminism in Ukraine” da Jessica Zychowicz, vemos a seguinte citação atribuida à Anna Hutsol [1]:

Eu acho que se você pode vender biscoitos desta forma (através do apelo às massas) por que não usar dos mesmos métodos para chamar a atenção para problemas sociais?

Em entrevista à revista austríaca Falter, Inna e Sasha Shevchenko responderam que não viam nenhum problema em posar nuas para a Playboy. Nas palavras de Inna: “Mulheres nuas já estampam a capa da Playboy. Se nossos protestos chegassem às capas seria um grande sucesso, pois significaria que os homens aceitam a luta feminina”.

A exposição do corpo como “arma de guerra”

Uma das várias críticas feitas ao Femen é que todas as suas ativistas de topless não fogem de um padrão de beleza eurocêntrica. São todas mulheres jovens, magras, brancas e loiras, de preferência. Quando questionadas a respeito do porque seguir esse padrão excludente, as líderes do movimento dão respostas no mínimo curiosas.

Na página do facebook do Femen France, vemos uma foto de duas ativistas que, segundo o Femen, estariam fora do padrão e seriam uma resposta às cobranças. Segundo a página, as garotas que mais aparecem nas fotos são aquelas que estão mais envolvidas com o movimento. E se as ativistas são geralmente magras é “porque em uma sociedade tão hostil aos corpos femininos, garotas devem estar preparadas para enfrentar comentários, insultos e violências física e moral”.

Em entrevista a Jessica Zychowitz, Anna Hutsol disse em relação ao fato de não haver mulheres mais velhas no Femen [2]:

Mulheres fortes não podem ser tímidas na Ucrânia. Considere o fato de que um corpo velho não é tão bonito quanto era aos 16; bem, também há os vizinhos, parentes, etc que acham que mulheres mais velhas não podem sair gritando em protestos ou envolver seus netos. E é mais difícil enfrentar o preconceito quando se é mais velha do que quando você tem 20, 22, 25 ou 26, porque quando se é mais nova você não tem nada a perder.

A ativista bielorrusa Alexandra Nemchilova: piada

A ativista bielorrusa Alexandra Nemchilova: piada

Usada como exemplo de ativista gorda quando indagadas sobre o porque de não aceitarem mulheres fora do peso considerado padrão, a bielorussa Alexandra Nemchilova servia de escada cômica nos protestos do Femen internacional. Vestida de “sex bomb”, com a cabeça raspada e de bigodes falsos para personificar ditadores ou até mesmo colocada em um chiqueiro para protestar contra a Eurocopa em 2012, a falta de respeito e a chacota eram latentes.

Também se nota a falta de ativistas negras e orientais no grupo, e mesmo no Brasil a tendência a buscar ativistas que se enquadrem ao padrão eurocêntrico de beleza foi notada e bastante discutida. E apesar de o grupo hoje negar, existe sim um processo seletivo para entrar no Femen. Usar somente corpos jovens e que seguem os padrões impostos de beleza é uma forma de ter a atenção irrestrita da mídia, que o Femen vê como aliada. Mas ao atender as demandas daqueles que elas consideram como aliados, acabam excluindo aquelas que realmente seriam as verdadeiras beneficiárias de seu suposto ativismo: as mulheres.

1 Zychowicz, Jessica. 2011. Two Bad Words: Femen & Feminism in Ukraine, pag 221

2 Zychowicz, Jessica. 2011. Two Bad Words: Femen & Feminism in Ukraine, pag 219

Agradeço a Anna Rocha pela ajuda nas pesquisas e na revisão e Jose Antonio Pano pela ajuda nas traduções

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